Os dois componentes: retainer e success fee
No mercado brasileiro — como no internacional — a remuneração de uma boutique de M&A combina, na maioria dos mandatos, dois componentes com funções distintas:
- Retainer — honorário fixo, cobrado mensalmente ou por etapa concluída. Remunera o trabalho de preparação: valuation, demonstrações financeiras proforma, tese de investimento, teaser e information memorandum, mapeamento e abordagem de investidores. É uma fração pequena da remuneração total e, em muitos contratos, é abatido do success fee no fechamento.
- Success fee — a taxa de êxito: um percentual sobre o valor da transação, pago somente se o negócio fechar. É onde está a maior parte da remuneração da assessoria.
Os percentuais e valores exatos variam com o porte, o setor e a complexidade da operação, e são definidos caso a caso no mandato. A regra geral do mercado é uma escala regressiva: quanto maior a transação, menor o percentual — e vice-versa. O que importa mais do que o número, porém, é a arquitetura.
Por que essa arquitetura protege o empresário
O success fee não é um detalhe comercial: é um mecanismo de alinhamento de incentivos. Quando a maior parte da remuneração da assessoria só existe se a transação fechar — e cresce com o valor fechado —, assessoria e empresário passam a querer a mesma coisa: o melhor negócio possível, não qualquer negócio.
Esse desenho também explica por que uma boutique séria recusa mandatos. Se o negócio não tem condição real de fechar bem, o custo de oportunidade de meses de trabalho sênior não se paga. A recusa honesta, antes do mandato, é o sistema de incentivos funcionando a favor do empresário.
"Sem retainer" é vantagem?
É comum o empresário preferir, à primeira vista, o modelo 100% êxito — "só pago se vender". A intuição é compreensível, mas merece uma segunda olhada:
- O retainer filtra comprometimento dos dois lados. A assessoria aloca equipe sênior por mais de um ano; o empresário sinaliza que o processo é para valer. Sem esse filtro, a tendência é a carteira inflar — dezenas de mandatos simultâneos, cada um recebendo uma fração da atenção.
- Preparação custa trabalho real. Valuation defensável, proforma, materiais: é nessa fase que boa parte do valor é construída. Trabalho não remunerado tende a ser trabalho apressado.
- O incentivo distorce no fim. Quem está há 18 meses sem receber nada tem pressa de fechar — inclusive um negócio pior do que o empresário merece.
Nada disso significa que retainer alto seja virtude. A proporção é que informa: retainer que cobre custo de preparação, success fee que concentra o ganho. Desconfie dos dois extremos.
O que perguntar antes de assinar um mandato
- Qual a proporção entre retainer e success fee? A maior parte do ganho da assessoria deve estar condicionada ao êxito.
- O retainer é abatido do success fee? Prática comum que reforça o alinhamento — vale confirmar no contrato.
- Sobre qual base incide o success fee? Valor da firma (enterprise value) ou valor das ações (equity value)? Inclui earn-out e parcelas retidas? Definições vagas geram disputa no closing.
- Há taxa mínima de êxito? Em transações menores, é comum um piso — legítimo, desde que explícito desde o início.
- O que acontece se eu desistir? Cláusulas de exclusividade, prazo e cauda (tail) são padrão de mercado, mas os termos variam. Entenda-os antes, não depois.
- Quem, nominalmente, vai trabalhar no mandato? O custo só se justifica se a senioridade prometida na proposta for a mesma da execução.
O custo se paga? A pergunta certa é outra
Numa transação relevante, o fee da assessoria é tipicamente uma fração pequena do valor em jogo — e os pontos em que uma boa condução move o resultado são muito maiores do que ele: competição real entre compradores, valuation que resiste à due diligence, estrutura de earn-out bem negociada, garantias e retenções proporcionais ao risco.
Na nossa experiência, empresas que chegam ao mercado preparadas — base financeira organizada, valuation periódico, história bem contada — valem entre 20% e 100% mais do que as que improvisam. O maior custo raramente é o da assessoria; é o de negociar sozinho, uma única vez na vida, contra compradores que fazem isso profissionalmente todos os meses.